Muito além do supermercado: conheça o papel da mulher na economia

Em 2009, uma mulher recebeu pela primeira vez o prêmio Nobel de economia. Elinor Ostrom era uma economista americana da Califórnia. No mesmo ano, em São Paulo, outra mulher (eu) entrava pela primeira vez para a lista de nomes sujos do Serasa.

Eu era então estudante e sem nenhuma base de economia. Me identificava, até com certa graça, como uma pessoa que “não se dá bem com contas”. O que é bem comum para uma pessoa “de humanas”. Mas, naquele ano, tive que mudar de comportamento.

Ou seja, eu poderia me deixar levar pelo buraco negro do cheque especial do cartão de crédito, ou deixaria o lugar quentinho e confortável do “não sou boa nisso” e aprenderia a lidar com finanças, e com urgência.

Provavelmente você também se lembra que aquela era uma época de crise, e pra mim o efeito dela foi que meu pai não pôde me ajudar a pagar a faculdade por um tempo, o que causou a dívida. Só então percebi que nem sabia exatamente quanto eu recebia e quanto gastava todo mês.

Pra resolver isso, o que funcionou pra mim foi pedir conselhos para algumas pessoas próximas, que entendiam mais do assunto. Tive que pausar a faculdade e conseguir um emprego que me permitiria voltar a estudar. Além disso, tive que rever meus preconceitos sobre economia.

Essa não é uma história sobre como eu aprendi a investir e fiquei milionária – isso não aconteceu. Em vez disso, é a história sobre como vi que o cenário em que eu e as mulheres próximas a mim estávamos nos distanciava de ter uma economia equilibrada.

Vemos as mulheres frequentemente tratadas pela mídia como gastadoras enquanto homens são retratados como desapegados ao consumo. Existem grandes exemplos de mulheres na economia, mas não os vemos retratados na mídia, ou em cargos de chefia nas empresas, com a mesma frequência que vemos homens.

Atualmente minhas contas vão bem, tenho minhas planilhas em dia e até faço algum investimento. Me formei em jornalismo, trabalho como redatora e posso escrever sobre economia e finanças com confiança. Ou seja, meus conhecimentos em economia vão muito além do orçamento doméstico, assim como o de muitas outras mulheres no mercado de trabalho.

Mesmo assim, ganhamos menos que os homens. Em discurso no Dia Internacional da Mulher, o presidente Michel Temer disse que “(…) a mulher, além do cuidar dos afazeres domésticos, vai vendo um campo cada vez mais largo para o emprego. Porque hoje homens e mulheres são igualmente empregados. Com algumas restrições ainda”. Quando lembrou que há “restrições”, provavelmente o presidente se lembrou que, na verdade, homens e mulheres não são igualmente empregados. E também não são igualmente vistos em todo seu potencial.

É preciso reformatar a visão da mulher na sociedade e na economia. Isso começa quando cada mulher pode também se enxergar fora do estereótipo exibido em propagandas ou na fala do chefe do governo do país.

Mulheres foram importantes na formação do pensamento econômico

Em seu discurso no dia 8 de março, o Presidente disse também que “na economia a mulher tem grande participação por (…) indicar desajustes de preços no supermercado (…) e detectar as flutuações econômicas pelo orçamento doméstico maior ou menor”, ignorando o papel da mulher na economia fora do ambiente doméstico.

Esse papel existe, e para reforçar isso, escolhi apenas dois exemplos de grandes mulheres que ajudaram a formar o pensamento econômico que conhecemos hoje.

Beatrice Webb (Reino Unido, 1858-1943)

BeatriceWebb

Beatrice foi uma das formadoras do conceito de bem-estar social. Ela não precisava trabalhar por ser de uma classe social mais alta, de empresários e políticos. Mas, por seu interesse social, chegou a se disfarçar para conhecer o ambiente que enfrentavam as trabalhadoras de fábricas.

Contemporânea e amiga de John Maynard Keynes, Beatrice e seu marido, Sidney Webb, organizavam em sua casa reuniões com importantes pensadores e políticos de Londres. Como mencionado no livro “A Imaginação Econômica: gênios que criaram a Economia Moderna e mudaram a História (São Paulo, Companhia das Letras, 2012) o casal teve grande influência na política e economia de sua época, inclusive sobre o trabalho do primeiro-ministro britânico Winston Churchill.

Elinor Ostrom (Estados Unidos, 1933-2012)

Elinor Ostrom

Ela é a senhora que comentei no começo do post. A economista foi a primeira e até hoje é a única a receber o prêmio Nobel de Economia. Elinor contou em uma entrevista para a GloboNews que teve dificuldade para se formar em economia, pois as mulheres não eram aceitas no curso como os homens, mas tinham de entrar por mérito. Ela conseguiu e usa o exemplo para dizer às mulheres que enfrentam barreiras que não desanimem.

Elinor e seu parceiro Oliver E. Williamson conquistaram o Nobel por seus estudos sobre a cooperação entre sociedades, lição que é especialmente importante em uma época de segregação como a atual. Eles falaram ainda sobre como pequenas comunidades podem colaborar entre si, sem a necessidade de intervenção de autoridades.

Mulheres ajudam a formar o comportamento econômico

Se você, como eu, já passou por dificuldades econômicas ou achou que o tema era distante e complicado, saiba que isso pode mudar. Ainda existem muitas mulheres economistas com relevância, que tratam de questões nos meios acadêmicos e até em colunas de jornal. E que existem mulheres jornalistas que usam a ocupação para disseminar informações sobre economia, do nível mais essencial ao mais avançado. Trouxe alguns exemplos pra começar a seguir e aprender já.

Para conhecimento inicial em economia

Mulheres ganham menos do que homens. Não é de se espantar que o resultado seja o que vou chamar de efeito Becky Bloom, a mulher que aprende a lidar com finanças quando já passou por dívidas.

Recomendo o canal Me Poupe! do Youtube principalmente pra quem está nesta fase mais difícil no caminho da organização de finanças pessoais: começar. Nathália Arcuri trata do assunto de um jeito bem simples e simpático. Ajuda a não se assustar com a quantidade de informações que virão pela frente.

Para quem tem conhecimento intermediário

Mulheres se envolvem menos em investimentos. A relação é, em média, de 80% homens e 20% mulheres, de acordo com a Bovespa, uma pesquisa que fiz com a maior corretora do país e uma fintech.

Acredito que em grande parte isso se deve à falta de conhecimento sobre economia e investimentos. Pra quem já tem uma organização financeira e está com um dinheiro na mão e pode começar a investir, o site Finanças Femininas traz boas dicas. Além disso, também trata de economia de forma leve, como ela é ou deve ser: parte do cotidiano.

Para nível avançado em economia

Essa indicação é pra quem já tem base em economia, tem interesse ou já atua na área profissionalmente. Ela é pra acompanhar de perto as novidades do mercado. Olívia Bulla é jornalista especializada em economia e mercado financeiro e traz no seu site o que acontece de relevante no mercado nacional e internacional. O site pode ser acessado gratuitamente, assim você tem informações de ponta sem precisar de uma assinatura cara de jornalão e pode até seguir a Olívia aqui no LinkedIn e receber notificações quando saírem textos novos.

Espero que as dicas ajudem as mulheres e os homens que leram até aqui a entender que o lugar da mulher é sim na economia, dentro de casa ou fora, onde ela quiser.

 

Texto publicado originalmente no linkedin: https://www.linkedin.com/pulse/mulher-na-economia-muito-al%C3%A9m-do-supermercado-mariana-rodrigues