Sobre consumo e liberdade

Há exatamente dois anos eu estava mudando uma parte da minha vida. Naquele dia acordei tensa, antecipando que aquele seria um dia importante. Chegando no trabalho eu me lembro que eu olhava ao redor, para todos os colegas, e tentava conter minha expectativa. Imaginava que todos ali podiam ler “vou pedir as contas hoje” escrito na minha testa. E era isso mesmo o que tinha decidido fazer.

Mas antes disso, aquele foi o ano em que eu me disse mais “nãos”.

Eu precisava ter uma boa reserva em dinheiro, um “colchão” caso os meus planos não dessem certo, pelo menos por um tempo.

Por que é difícil economizar?

A gente começa a trabalhar e ter algum dinheiro, aí muda de emprego para ganhar um pouco mais, se sente mais independente. Então pode sair mais com os amigos, ter roupas mais legais, deixar de andar de ônibus/metrô para ter um carro (ou, no meu caso, andar mais de uber mesmo). Ou pode passar a morar fora da casa dos pais, mais perto do trabalho ou em uma região que goste mais, etc. E assim os gastos vão subindo, em escala até igual ou maior do que a dos ganhos.

Uma coisa que me ajudou a me manter na linha no ano passado foi um texto que li em janeiro de 2016, e se chamava (em tradução livre) a história de um fundo do foda-se.

O artigo escrito pela jornalista Paulette Perhach falava sobre como o começo da nossa vida adulta tem suas ciladas. Ele me fez lembrar como é importante ter dinheiro para não ficar endividada no caso de qualquer imprevisto. Ou para mudar de rumo, como eu fiz.

Como eu faço para economizar

Pra quem é herdeiro, ganhou na mega-sena, tem pais ricos, ou tem outra forma de não viver do que ganha pelo seu trabalho, economizar não é uma questão. Por outro lado, quando você vive do seu salário e está no começo da carreira, enquanto pensa que pode deixar para economizar mais tarde, que está fazendo como todo mundo, é difícil economizar. Gastar todo o salário parece ser um resultado automático da vida. A maior parte dos brasileiros faz isso, infelizmente.

O maior motivo, pelo menos para mim, é o argumento “eu mereço”. Ao ver aquela roupa na vitrine ou acompanhar os amigos em um restaurante caro, era fácil pensar “eu trabalho tanto, eu mereço”.

Eu já estive acostumada a perceber o mundo me dizendo, nas revistas, nas redes sociais, nas conversas, que eu merecia tal roupa, tal viagem, tal maquiagem. Mas aí cabem duas questões: 1. Mas eu preciso disso? e 2. Como isso se encaixa no que eu quero no longo prazo? Acho mais simples dizer não quando não consigo respostas positivas para essas duas perguntas.

Além disso, acho que não estamos tão acostumadas/os – ou não somos tão impactados a todo o momento – por mensagens como “você merece ir atrás do seu sonho”, “você merece desacelerar e ter mais tempo para a família”, “você merece amigos que vão onde você pode, não onde é mais bacana”, “você é único/a e não precisa ser igual a ninguém”. Quando é difícil ter consciência de que merecemos coisas grandes, é fácil se apegar a coisas pequenas. Então pensar sempre num objetivo maior também me ajuda a dizer não para as coisas pequenas que estão no caminho – e manter a carteira guardada.

Pra finalizar, estou escrevendo agora enquanto me seguro para não gastar nessa black friday. Afinal, está tudo “tão barato” – outro argumento que costuma preceder um gasto do qual vou me arrepender. Pensei em tudo o que já aprendi e se vale mais a pena gastar hoje ou economizar para amanhã, e achei que outras pessoas podem gostar dessa reflexão, e se juntar a mim para pensar nisso e em como selecionar melhor seus gastos.

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