O buraco na camada de ozônio se resolveu sozinho?

Se você tem aproximadamente 30 anos ou mais, com certeza se lembra de ouvir notícias alarmantes sobre o problema do buraco na camada de ozônio. Nos anos 90 o tema era frequentemente tratado na imprensa, com um fator que chamava a atenção: além de estar relacionado com o aquecimento global, o buraco na camada de ozônio era diretamente ligado ao aumento nos casos de câncer de pele.

Pode-se considerar fácil abstrair ou relativizar o aquecimento global que vai acontecendo aos poucos, mas ninguém desvia a atenção quando se fala em aumentar as suas chances de ter câncer. Então, o buraco na camada de ozônio conseguiu a atenção popular. Lembro de uma época em que não se sabia bem se o problema eram os desodorantes ou as geladeiras, quais produtos eram seguros e se a questão tinha mesmo jeito.

Já a solução para o problema aconteceu aos poucos, levou alguns anos e precisou da cooperação internacional. Por isso, as notícias esparsas da resolução do caso chamaram bem menos a atenção do público.

De maneira que, outro dia, na caixa de comentários abaixo de uma notícia sobre mudança climática eu li um comentário dizendo que a mudança climática era mais uma coisa como a camada de ozônio, “que viviam falando e depois nunca mais”: como se fosse uma “moda” e não um problema real.

Então, para quem perdeu esse bonde – ou quem era muito novo na época – resumo aqui tudo de importante que você precisa saber sobre o buraco na camada de ozônio.

O que é a camada de ozônio e por que ela é importante?

A camada de ozônio funciona como um filtro que protege a terra dos raios solares, reduzindo a intensidade de radiações nocivas. Sem a camada de ozônio os raios ultravioleta poderiam destruir toda a vida que conhecemos na Terra.

Ela começou a ser mensurada, a partir da terra, em 1956, sendo que o primeiro mapeamento mais completo da camada, via satélite, foi feito em 1978.

Como surgiu o buraco na camada de ozônio?

Em 1974 cientistas já haviam desenvolvido a teoria de que os gases clorofluorcarbonetos (CFCs) produziam danos na camada de ozônio por conta de uma reação química que, resumidamente, destrói o ozônio. Tanto que, em 1978, os Estados Unidos baniram o uso de CFC na produção de aerossóis. No entanto, indústria continuou lutando para manter o uso de CFC para outros fins e questionando a relação dos gases com os danos à camada de ozônio.

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Matéria do jornal O Globo em 1979 aborda o uso de CFC em aerossol

De acordo com a Nasa, os estudos sobre os danos à camada de ozônio não eram levados a sério pois faltava um choque de realidade. O choque veio em 1985, quando um estudo demonstrou que, na Antártica, a camada tinha tido uma redução de 10% em comparação com o nível normal.

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Caderno de Vestibular do Globo em 1997

Começou então uma colaboração internacional para acabar com o uso dos gases na indústria. Em 1986 foi estabelecido o Protocolo de Montreal, programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que vigorou a partir de 1989. Ele previa a redução da produção e comercialização dos gases CFC, que destruíam o ozônio da camada na atmosfera, e tinha metas para cada país. Em 2007 o Brasil já havia reduzido em 90% o uso de gases clorofluorcarbonetos (CFCs).

O que é e como surgiu o CFC?

Conhecido como gás CFC ou Freon, o CFC é um composto químico artificial criado em 1928. Ele passou a ser produzido comercialmente pela primeira vez em 1930 pela DuPont.

O CFC veio a ser o vilão na história por causar a destruição do ozônio. Mas ele foi criado para salvar vidas. Nos anos de 1800 e começo de 1900, os refrigeradores precisavam usar componentes tóxicos como amônia, cloreto de metila e dióxido de enxofre. Depois de uma série de acidentes fatais envolvendo o vazamento desses itens, a indústria americana de refrigeradores – na época Frigidaire, General Motors e Du Pont – começou seus esforços para descobrir um substituto não tóxico, e daí veio o CFC.

Como o CFC foi substituído?

Ainda temos refrigeradores e aerossóis, então o CFC foi substituído nesses produtos.

Nos refrigeradores, costumam ser usados hidroclorofluorocarbonetos (HCFC) e hidrofluorocarbonetos (HFC). Esses compostos são isentos de problemas? Na verdade não: a maioria dos gases HFC tem um enorme potencial de aquecimento global, com um efeito que é milhares de vezes mais poderoso que o gás carbônico em termos de retenção de calor na atmosfera. Por isso, o mesmo Protocolo de Montreal estabelece que o HCFC e o HFC também devem ser substituídos nos próximos anos.

Já há alternativas. Por exemplo, com o apoio do Ministério do Meio Ambiente do Brasil e da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI), a Eletrofrio desenvolveu uma nova tecnologia de resfriadores que utiliza o propano como gás refrigerante. O gás não oferece risco à camada de ozônio e tem um potencial de aquecimento global baixo. Mas o HFC ainda é usado, atualmente, no sistema de ar-condicionado de todos os carros fabricados nos Estados Unidos.

Quanto aos aerossóis, no Brasil, é usado GLP (gás liquefeito de petróleo), o mesmo do gás de cozinha.

Como está a camada de ozônio hoje?

Os esforços internacionais e os estudos científicos estão surtindo efeito. O buraco na camada de ozônio está no menor tamanho desde o que foi registrado em 1985, quando foi descoberto. O que já teve mais de 16 quilômetros de extensão, hoje tem menos de dez quilômetros quadrados. Ainda há CFC na atmosfera e os cientistas esperam que, conforme os níveis dos gases caiam nos próximos anos, o tamanho do buraco continue a cair. Mas o nível de ozônio só deve retornar ao que era em 1980 por volta de 2070.